Por Elenilson Nascimento*
Nascido em Salvador no ano de 1971, Alexandre Leão começou a cantar e tocar profissionalmente ainda adolescente. Em 1987, aos 15 anos, formou dupla com Belô Velloso e passou a cantar na noite de Salvador. A primeira intérprete a gravar uma canção de sua autoria foi ninguém menos do que a Maria Bethânia, em 1989, quando Alexandre tinha apenas 17 anos. A música em questão era "Paiol do Ouro" (parceria com Olival Mattos), registrada no disco “Memória da Pele”.
E enquanto dava seus primeiros passos na música, o garoto também cursava Publicidade e Propaganda, até formar-se em 1995, na mesma faculdade em que eu me formei. Nos anos 90 passou uma temporada em Portugal, apresentando-se em Lisboa e no Porto. Participou do “Prêmio Visa” (SP) e recebeu o “Prêmio Copene Cultura e Arte” (BA) de 1999, que lhe deu o direito de gravar seu primeiro CD, “Minha Palavra”. O extraordinário disco foi premiado também com o “Troféu Caymmi” (BA), em 2000.
Já no ano de 2002, em meio a uma temporada de dois anos em São Paulo, gravou o CD homônimo “Alexandre Leão”, que contou com a participação de grandes músicos e da maravilhosa cantora Rosa Passos, com quem fez apresentações por algumas cidades do Brasil. “Canção para Cristina”, composta para sua linda esposa, venceu o “Festival da Rádio Educadora da Bahia 2004”, entre mais de mil músicas inscritas. Em 2005, nova premiação e como resultado, mais um CD. O “Prêmio de Cultura do Banco Capital” patrocinou as gravações de “Axé, Babá”, disco no qual Alexandre canta, ao seu estilo, clássicos do carnaval baiano.
Em 2009 gravou o seu novo (e melhor disco de carreira) intitulado “Quatro Cantos”. O novo trabalho é totalmente autoral e passeia por ritmos como samba, bossa nova, forró e rock, traçando um panorama de sua carreira e dando uma visão geral de tudo que já fez fiz. No novo trabalho há composições em parceria com Jota Veloso, Jau, Targino Gondim, Carlinhos Cor das Águas e Carlos Colla. Nas músicas “Dois Alguéns” e “Praia da Espera”, participam, respectivamente, o “queridinho” da imprensa baiana, o cantor Saulo Fernandes (Banda Eva) e o violonista Mário Ulloa.
Alexandre tornou-se um dos compositores baianos mais requisitados, além de ter sido gravado por vários intérpretes como Ivete, Bethânia, Rosa Passos, Margareth Menezes, Família Caymmi, Lampirônicos, Belô Velloso, Ricardo Chaves, entre muitos outros. E até a “inacreditável” Marina Elali. Alexandre também tem participado de várias trilhas de filmes e novelas com as suas canções, além de muitas campanhas publicitárias, nas quais também é um mestre.
Em suma, Alexandre Leão é sem dúvida um pioneiro e um sobrevivente no Brasil em seu estilo. O cantor baiano, que agora está prestes a lançar o seu primeiro CD ao vivo de carreira, “Alexandre Leão Ao Vivo na Varanda”, concedeu essa entrevista exclusiva falando sobre sua história, sua fé, política, seu estilo musical e, obviamente, sobre o novo CD.

Elenilson – Como foi a escolha do repertório desse primeiro disco ao vivo?
Alexandre Leão – Foi natural, as principais canções que venho tocando nestes sete anos de temporada na Varanda do Sesi.
Elenilson – Porque você demorou tanto tempo para lançar um disco ao vivo?
Alexandre Leão – Na verdade esse é um CD promo, invendável. Ele foi feito para mostrar aos contratantes como é o clima do show, que é bem diferente dos meus outros CDs. Também para divulgar o show, é claro.
Elenilson – Qual sua visão da dicotomia entre letra e poesia, entre música boa e essas lançadas para apenas um período de verão em festas de camisas?
Alexandre Leão – Não há dúvida de que são duas coisas totalmente diferentes, poesia e letra de música. Nem todo poema se presta a letra e nem toda letra pode ser considerada poesia, claro. Sobre essas canções "de verão" a que você se refere, elas sempre existiram desde que a música se tornou um produto rentável. Elas são feitas para entreter e, como você mesmo disse, a maioria delas se perde no tempo. Isso vai continuar assim, só espero que o que é bom de verdade não continue tão escondido.
Elenilson – As referências que constam sobre a criação de algumas de suas músicas é uma coisa permanente na sua carreira?
Alexandre Leão – Não entendi... Se foi sobre os temas recorrentes nas minhas músicas, já falei de tanta coisa... Mas o amor é mesmo o tema de sempre.
Elenilson – Quais as melhores recordações da sua vida como cantor e compositor em Salvador?
Alexandre Leão – Não há nenhuma em especial. Sei lá...
Elenilson – Você tem feito shows semanais na Varada do Sesi durante esses sete últimos anos, apresentando seu trabalho autoral e com várias participações, baseado nos diversos sucessos conquistados ao logo da sua carreira. Como ainda está essa experiência?
Alexandre Leão – É difícil, muito difícil, manter uma temporada tão longa seja em Salvador ou em qualquer lugar. Isso torna a temporada do Sesi ainda mais vitoriosa. É incrível a quantidade de surpresas e momentos maravilhosos que a gente vive ali naquele palco. O público se renova bastante, mas há pessoas que frequentam o show desde o primeiro dia, em 2005.
Elenilson – Qual a sua relação com os mais engajados culturalmente nessa província chamada Bahia, e ainda com outros artistas e transgressores de uma época onde se fazia música como arte e não só para tocar no verão?
Alexandre Leão – Não sei quem são os mais engajados nem os transgressores, francamente.
Elenilson – Observando as suas letras e referências, percebe-se nitidamente uma preocupação mais existencial, até religiosa, até com referências ao “ser artista” e à “Filosofia”... Comenta.
Alexandre Leão – Não sou religioso, mas espero que a vida seja mais do que isso aqui que vivemos, apesar de achar esta vida uma maravilha. Esta é uma busca universal e é natural que esteja presente em minhas letras também.
Elenilson – “Acabou Chorare” dos Novos Baianos, lançado em 1972, foi eleito o melhor disco brasileiro de todos os tempos (pela revista Rolling Stones - Brasil). A que você atribui isso, à uma síntese de linguagens - samba, choro, bossa, rock? Ou a nova geração de artistas não aprendeu absolutamente nada?
Alexandre Leão – Não existe "o melhor disco brasileiro de todos os tempos", isso é uma grande bobagem. Cada um tem o seu disco preferido. Esse aí é um dos discos que mais escutei na vida, por tudo que você falou, pelo talento dos envolvidos, pela inspiração de João Gilberto sobre eles, por tudo que eles viviam naquele momento especial, mas cada geração tem seus representantes, e cada um sabe o que é melhor pra si. Não acho que os tempos passados sejam necessariamente melhores do que os de hoje. Na história da humanidade, as novas gerações sempre foram acusadas de serem decadentes, vazias de conteúdo, etc... Veja a letra de "Como Nossos Pais", de Belchior, que têm quase 40 anos de criada. Tá tudo dito ali.
Elenilson – O rótulo “desbunde” define bem a sua música?
Alexandre Leão – De jeito nenhum. Acho minha música discreta, assim como eu.
Elenilson – Moraes Moreira já declarou que os Novos Baianos era “uma solução super-brasileira, pois tinham até um time de futebol”. Segundo ele, o grupo unia duas paixões nacionais, um retrato do Brasil e sempre antenado com o que vinha acontecendo no mundo, política e esteticamente. Esse tipo de convivência fez ou faz falta às novas gerações?
Alexandre Leão – Essa convivência continua existindo. A música de hoje representa o Brasil de hoje, pelo menos o "senso comum" do Brasil. A cultura mundial é cada vez mais superficial, naquele esquema shopping-center. Se você liga o rádio em qualquer país do mundo ocidental, ouve praticamente a mesma coisa. Quem quer o "alternativo", busca os meios alternativos. E viva a internet...
Elenilson – Quem você vem apreciando da “nova geração” de músicos da Bahia? Depois dos Tribalistas, você percebe ecos de bons trabalhos em quem, por exemplo?
Alexandre Leão – Gosto de Magary, mas não conheço muito bem. Amo a Rumpilezz, é um orgulho para a Bahia ter um grupo desse por aqui.
Elenilson – Acabei de ler no “New York Times” que, possivelmente, o Brasil é o país mais importante para o qual estão voltados todos os olhos do mundo. Não que o artigo todo seja a favor, é até crítico e contra. Mas parte do pressuposto de que o Brasil é um êxito histórico aos olhos deles, estrangeiros, muito maior do que a gente imagina. Como o você vê o Brasil/Bahia?
Alexandre Leão – O Brasil é mesmo um país especial, pela unidade linguística, diversidade e riqueza cultural e natural, além de uma razoável tolerância religiosa e racial. Contudo, toda vez que vou aos EUA ou à Europa, fico triste de constatar o quanto estamos aquém em desenvolvimento e cidadania. É muito desperdício. Espero viver para ver um Brasil melhor de verdade, mas se depender dos nossos políticos e do nosso povo, não há muita esperança. Todo mundo se acostumou à falta de ética e à corrupção em nosso país. Não dá para reclamar do mensalão e achar normal dar propina ao guarda no trânsito, por exemplo. E tudo isso ainda é pior em nosso estado, ainda mais a Salvador. Desde Lídice da Mata e Fernando José eu não via nossa cidade tão maltratada. É lamentável. E o metrô? Que absurdo, ninguém reclama de verdade...
Elenilson – O que você pensa ou como se sente diante desse panorama cultural atual, especialmente na sua área? Será que para se fazer sucesso você tem que ter papai dono de bloco e comprar espaço nos jornais decadentes da Bahia?
Alexandre Leão – Sinceramente, não sei como funcionam essas coisas, não faço parte do "showbusiness". Me considero uma pessoa de sucesso. Vivo confortavelmente da minha música, do meu trabalho. Faço somente o que gosto de fazer. Quer mais sucesso do que isto?
Elenilson – A “sentença sardônica” do poeta cai como um paradigma: não se edita mais poesia por que poesia não vende e, por conseguinte, se não vende, morreu. Bom, dessas mortes anunciadas, já estamos acostumados, aliás, desde que fomos expulsos da República de Platão. Por isso, continuamos mortos, redivivos. Mas tem uma coisa: existe muito egoísmo, vaidade e purpurinas nesse meio. Prefiro ser expulso da ABL a não ser lido por um cara na Feira de São Joaquim. E você? Venderia a alma ou daria a bunda para ser produzido por um Roberto Medina?
Alexandre Leão – Que é isso? Que violência é essa? (risos) Nem uma coisa nem outra. E quanto à poesia, não acho que vá desaparecer. Os livros de poesia é que talvez desapareçam mesmo. Não imagino as futuras gerações comprando livros ou e-books de poemas, mas tomara que eu esteja enganado.
Elenilson – Eu sou totalme
nte descrente quando à política no Brasil. Com tudo o que pode acontecer de ruim, que tem mesmo, a gente sabe, num povo que tem um potencial grande, mas abertamente abestalhado. O mundo já olha para o Brasil de um modo diferente. Tenho muitas críticas, mas também muitos elogios. Você ainda tem expectativas de um dia essa p... melhorar?
Alexandre Leão – Não sei se estarei vivo pra ver isso, mesmo que morra com oitenta e tantos anos.
Elenilson – A política no Brasil se tornou uma lata de lixo. A justiça no nosso país só “funciona” para pretos e pobres como ficou evidente na Câmara do Senado, no caso da dePUTAda Jaqueline Roriz (PMN-DF) que escapou com facilidade, sob o argumento de que a corrupção era anterior ao mandato. Fica para o historiador do futuro emitir a sentença para esses tempos bicudos. Contudo, na época do Renato, que fez algumas letras bastante políticas, a coisa não era tão diferente assim, mas a juventude era mais atenta. O que você acha da cena política?
Alexandre Leão – Você pergunta afirmando...
Elenilson – Um ano do governo Dilma e o Ministério da Cultura continua a ser destaque. Triste destaque, diga-se de passagem. Diferente dos oito anos da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira. A evidência nestes meses vai para a falta de uma política cultural que enfrente os desafios contemporâneos e que amplifique e aperfeiçoe o caminho aberto e construído (*mesmo com passos tortos) durante o governo Lula. Como você encara essa situação?
Alexandre Leão – Não sei até hoje qual é a "política cultural" do Minc. Nem procurei saber, pra falar a verdade.
Elenilson – O Estado tem que mexer na Lei Rouanet?
Alexandre Leão – Nunca pensei a respeito.
Elenilson – Algum dia pensou em se mudar?
Alexandre Leão – Penso nisso quase todo dia.
Elenilson – E sobre essa juventude asneada desse novo – ainda velho – século?
Alexandre Leão – Já falei sobre isso. Não penso assim. A afirmação é sua, Elê.
Elenilson – As pessoas perderam a capacidade de se indignar?
Alexandre Leão – O brasileiro tem uma tradição de tolerância que foi potencializada em 20 anos de autoritarismo e censura. É difícil romper com isso. É algo que vêm desde o Brasil-Colônia, Império, Republica Velha, Ditadura de Vargas... Um país coronelista.
Elenilson – Como você se relaciona com a tecnologia?
Alexandre Leão – Amo a tecnologia, acho o mundo melhor com o seu avanço. Não sou nostálgico com relação a isso, mas não sou deslumbrado.
Elenilson – Por falar nisso, gostaria que falasse um pouco sobre os seus planos para 2012.
Alexandre Leão – Espero que o planejamento que eu, Andrezão Simões e a Estrela do Mar (escritório que cuida da carreira de Margareth Menezes e agora da minha) seja posto em prática. É a primeira vez que meu trabalho será gerido de maneira profissional. Estou muito feliz com a equipe que montamos e com os objetivos traçados.
Elenilson – E a sua participação na abertura dos shows de Margareth Menezes?
Alexandre Leão – Maga é uma pessoa muito generosa, uma artista muito séria. Fico feliz e honrado em estar associado a seu nome. Vou abrir o show dela aqui em Salvador no dia 19 de janeiro, na Best Beach, na Ribeira. Vamos ver o que virá depois...
fotos: AL/divulgação

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